Unipessoal! Como um qualquer documento que ateste da identidade do indivíduo, assim é, também, a glória. O mesmo se passa na Teologia, onde se admite que Deus é único. Um apenas é o Papa e um apenas o Presidente de uma qualquer instituição ou entidade que dele necessite. Do mesmo modo, um apenas é o homem mais rico do mundo. De um homem apenas se diz ser o mais poderoso, mesmo que a sua idiotice varie na mesma razão. (Ainda assim, há áreas como as artes em que é menos consensual apontar o melhor escritor ou o mais bem interpretado bailado.)
Intimamente relacionadas com a glória, as relações do Homem com o poder sempre tiveram o carácter monopolista de que falava no início. Porque o Homem não foi criado para ser posto em causa. Não o foi a sua existência, de uma forma global, nem o foram as implicações dessa existência, num sentido mais estrito. To fundo tudo e todos os que o põem em causa são inimigos em potência. Para descobrir os seus inimigos, não bastará ao Homem olhar apenas à sua volta, mas tem também de olhar para si mesmo, tendo em conta a probabilidade de ser uma ameaça à sua própria existência. Há, assim, em cada ser humano e na relação que este cria com o poder, dois sujeitos em eminente assunção: o suicida e o fratricida.
Ora, (bio) logicamente, apenas o segundo nos abre as portas do poder. No fundo, uma imagem recorrente, a de Caim e Rómulo, pisando tempos e lugares diferentes, com as mãos manchadas de sangues diferentes, mas que jorrava da mesma fonte. Do mesmo crime. Procurando um bem maior, viram no caminho pior a única possibilidade. Ainda que custando o sangue fraterno a Abel e a Remo, esta foi a única solução. Abdicando da tradicional bondade cristã (antes mesmo do surgimento institucional do cristianismo), usaram-a como moeda de troca. Uma moeda que, ao contrário do poder, apenas se multiplica quando partilhada, quando possuída em comum. Dela se encontrará “uma posse tanto maior, quanto mais se amar aquele que dela partilha.” Um espírito de fraternidade, no fundo. “Vêde como se amam”, se dizia dos fundadores da família cristã. (Outro sangue havia já sido derramado!) Ora, o que aconteceu aos pais de Roma e aos filhos de Adão foi precisamente o contrário. Na busca pela glória e pelo poder, Cruzada primeira, traçaram-se a sangue as fronteiras suas pretensões, manchando a terra de duas terras que (oh ironia filha da mãe!) tanta guerra têm vindo a causar. Três lutas, no fundo. E temos já a Terra toda. Mas cresce a dor…
Igreja de Roma, já foste tão bela!
Depois quanto sangue, quantos madeiros,
livros, bruxedos! Quantos cordeiros
esfolados na noite. Oh Cinderela
cidade de Roma, quanto cresceste!
Mataste, subiste e mais tarde morreste
de podre que eras. Tibre (e areia)
não te navego que o teu vento semeia
medo e temor desde o nascer (da aurora).
Belas que fostes não digo que não,
erguei o poder, levantai a mão.
Oh três punhais descei sem demora
Matai-me (a bondade) e ao meu Irmão,
enquanto, sem glória, não me vou embora.
Por isto e por pouco mais, fraco poder o do benevolente:
Não tem inimigos mas quer ser julgado.
“Eureka!” de hoje comete o pecado
e manda-me um forte, mesmo que demente.
Mas não! Não é nada disto que quero. Porque também Santo Agostinho se enganou. Os maus que lutem entre eles, que os bons, se o forem, nem contra os maus lutarão (novamente), que também aos pés dos bons já correu demasiado sangue inocente. Assim espero eu: que para a primeira, o velho erro não seja (uma vez mais) um sonho. Que a terceira acorde do seu pesadelo. Antes que acabe como a do meio: morta e em ruínas. Por aí.