Friday, July 07, 2006

Enfim...

Um qualquer impulso de hipocrisia poderia levar-me a dizer que foi por falta de quórum. Está na moda. E utilizar uma palavra em latim aumentaria a minha credibilidade. Aguentava-me mais uns mesitos, mandava uns bitaites e, daqui a pouco, convidavam-me para escrever um livro. Sobre os bitaites. E haveria aplausos e beijinhos.
Vamos antes fazer assim: eu uso o blogue e a vossa paciência. Até porque há novidades. Ele não se queixará. Vós também não. Temos acordo? Faltou sobretudo tempo. Até porque o quórum (reparem, duas vezes) sempre foi solícito (solícito, onde é que eu fui buscar isto). A pedalada é que já não é a de há uns meses. Largos, bem sei. Mas este laboratório exige-me tempo. E eu não lho posso dar. Desta forma, vou mudar de ares.
De modos que o laboratório ficará como uma espécie de casa de campo onde, volta e meia, se matam velhos prazeres. A casa regular ficará aqui. Onde sempre esteve, mas onde nunca ninguém a viu. E por lá continua…

Thursday, January 19, 2006

O direito e o desejo

São treze as vezes que Portugal sente o seu espectro. Por treze vezes tudo pára. Por treze vezes o “duro desejo de não fazer nada” é revivido. Por treze vezes esse tão típico ardor de algumas classes portuguesas assoma do calendário.
- As fábricas fecham.
- Mas os trabalhadores descansam!
- A produtividade quebra.
- Mas os trabalhadores descansam!
- O país cambaleia.
- Mas os trabalhadores descansam!
Oh descanso bendito! Oh país(es) das maravilhas!
É agradável ver tanta gente, no primeiro de Dezembro, honrar a data que se comemora. Com afecto. Com amor. Com paixão. Sim, é com paixão que todos celebramos o grandioso dia em que expulsámos os espanhóis. (Um favor, foi o que lhes fizemos). É fervorosamente que tantos carros se dirigem, após um patriótico almoço familiar, para a casa grande e nova que está ao fundo da cidade e da serra. A fila é grande. Buzinam de alegria. Vê-se empenho e entusiasmo dentro dos carros. Ouvem-se cânticos. À desgarrada, como é costume. Um lança o mote e o outro responde. Ela dizia-me que se insultavam uns aos outros.
– Não, amor. Cantam por Portugal. Olha, parece o Euro…
E lá iam todos, para o ritual da nação, dar dinheiro aos franchisings dos espan… (ups!) O oitavo do mesmo mês, o Natal e a Páscoa são bem mais paradigmáticos. Que sabem bem as semanas com um furo ao meio, lá isso sabem. Mas com que direito? Que direito (ou dever) tem um agnóstico ou muçulmano de celebrar a Imaculada Conceição de Maria, quando não acredita sequer que Ela tenha existido, quanto mais naquilo que o dia representa? E o Natal, que é uma festa de família… O tanas! O Natal é uma festa cristã. Sempre o foi. É Cristo e o Seu nascimento que se celebram! Mas o oportunismo de muitos que o renegaram encarregou-se de a adaptar. Viver, vivemos todos, ou não? A morte a todos espera. O verdadeiro e profundo sentido de Natal só pode ser compreendido em relação com a Páscoa e a Sua Ressurreição.
Mas vejamos as coisas ao contrário! Com uma comunidade islâmica crescente, que sentido faz feriar em Agosto, quando o Ramadão é no período final do ano? (Ai a maior parte está desempregada, senhor deputado?!) Tanta sem-vergonhice carregam algumas decisões, para agora se evocar timidez! Que é discriminação, falar de credos ou opções políticas! Oh senhores. Então parece-lhes bem que um monárquico celebre o 5 de Outubro? Ou que convictos ex-funcionários da PIDE não trabalhem a 25 de Abril?
Ora, uma reformulação do sistema de feriados mataria dois coelhos de uma assentada. Primeiro, o aspecto do carácter (ou falta dele) para assumir opções e convicções, mesmo que arranhe os interesses lambões de cada um. Depois, a questão da produtividade. Se as fábricas trabalharem de forma mais ou menos permanente (variando a pujança mediante as circunstâncias) haverá muito menos desperdícios energéticos, temporais e laborais.
Dê-se a oportunidade para que cada um faça as suas opções, escolhendo os dias em que, como bom português, pouco ou nada fará! Ou goza os feriados em conformidade com as suas convicções e interesses, ou aproveita o mesmo número de dias para ir fazer companhia aos suecos, no Algarve. Sabe-lhes melhor o Mediterrâneo em Agosto, que a lareira, no Inverno.

Saturday, December 31, 2005

Afinal consegui...

...passar por aqui e deixar um abraço a todos os que, visível ou invisivelmente, por aqui vão passando. Deixei uma prendinha. Atrasada, bem sei, mas esteve a fermentar. E deixo mais um beijinho e um abraço. Vão repartindo, que serão suficientes. Um bom ano a todos. E como nesta altura aquilo que menos nos satura são os lugares comuns que nos vão obrigando a lembrar... sejam felizes.

Santidade e violência – poucas frases e breves versos (cruzando Santo Agostinho com Carl Schmitt)

Unipessoal! Como um qualquer documento que ateste da identidade do indivíduo, assim é, também, a glória. O mesmo se passa na Teologia, onde se admite que Deus é único. Um apenas é o Papa e um apenas o Presidente de uma qualquer instituição ou entidade que dele necessite. Do mesmo modo, um apenas é o homem mais rico do mundo. De um homem apenas se diz ser o mais poderoso, mesmo que a sua idiotice varie na mesma razão. (Ainda assim, há áreas como as artes em que é menos consensual apontar o melhor escritor ou o mais bem interpretado bailado.)
Intimamente relacionadas com a glória, as relações do Homem com o poder sempre tiveram o carácter monopolista de que falava no início. Porque o Homem não foi criado para ser posto em causa. Não o foi a sua existência, de uma forma global, nem o foram as implicações dessa existência, num sentido mais estrito. To fundo tudo e todos os que o põem em causa são inimigos em potência. Para descobrir os seus inimigos, não bastará ao Homem olhar apenas à sua volta, mas tem também de olhar para si mesmo, tendo em conta a probabilidade de ser uma ameaça à sua própria existência. Há, assim, em cada ser humano e na relação que este cria com o poder, dois sujeitos em eminente assunção: o suicida e o fratricida.
Ora, (bio) logicamente, apenas o segundo nos abre as portas do poder. No fundo, uma imagem recorrente, a de Caim e Rómulo, pisando tempos e lugares diferentes, com as mãos manchadas de sangues diferentes, mas que jorrava da mesma fonte. Do mesmo crime. Procurando um bem maior, viram no caminho pior a única possibilidade. Ainda que custando o sangue fraterno a Abel e a Remo, esta foi a única solução. Abdicando da tradicional bondade cristã (antes mesmo do surgimento institucional do cristianismo), usaram-a como moeda de troca. Uma moeda que, ao contrário do poder, apenas se multiplica quando partilhada, quando possuída em comum. Dela se encontrará “uma posse tanto maior, quanto mais se amar aquele que dela partilha.” Um espírito de fraternidade, no fundo. “Vêde como se amam”, se dizia dos fundadores da família cristã. (Outro sangue havia já sido derramado!) Ora, o que aconteceu aos pais de Roma e aos filhos de Adão foi precisamente o contrário. Na busca pela glória e pelo poder, Cruzada primeira, traçaram-se a sangue as fronteiras suas pretensões, manchando a terra de duas terras que (oh ironia filha da mãe!) tanta guerra têm vindo a causar. Três lutas, no fundo. E temos já a Terra toda. Mas cresce a dor…

Igreja de Roma, já foste tão bela!
Depois quanto sangue, quantos madeiros,
livros, bruxedos! Quantos cordeiros
esfolados na noite. Oh Cinderela

cidade de Roma, quanto cresceste!
Mataste, subiste e mais tarde morreste
de podre que eras. Tibre (e areia)
não te navego que o teu vento semeia

medo e temor desde o nascer (da aurora).
Belas que fostes não digo que não,
erguei o poder, levantai a mão.

Oh três punhais descei sem demora
Matai-me (a bondade) e ao meu Irmão,
enquanto, sem glória, não me vou embora.


Por isto e por pouco mais, fraco poder o do benevolente:
Não tem inimigos mas quer ser julgado.
“Eureka!” de hoje comete o pecado
e manda-me um forte, mesmo que demente.

Mas não! Não é nada disto que quero. Porque também Santo Agostinho se enganou. Os maus que lutem entre eles, que os bons, se o forem, nem contra os maus lutarão (novamente), que também aos pés dos bons já correu demasiado sangue inocente. Assim espero eu: que para a primeira, o velho erro não seja (uma vez mais) um sonho. Que a terceira acorde do seu pesadelo. Antes que acabe como a do meio: morta e em ruínas. Por aí.

Friday, December 23, 2005

Porque a originalidade já não é o que era...

Passei por aqui apenas para deixar um abraço de Feliz Natal a todos e a cada um de vós (ainda alguém por aqui passa?!). E como não sei se a disponibilidade melhorará em relação às últimas semanas, tomem lá outro, antes que chegue o Ano Novo...

Monday, November 07, 2005

Dias de Leitura - Três

Foram muitos, os dias que a leitura da obra me ocupou. Muitos mesmos. Pensava eu que fosse coisa de meia dúzia de semanas. Mas não… De densa, foi-me envolvendo dias e semanas e meses sucessivos sem que, acabadas as páginas, possa dizer que o tenha compreendido verdadeira e totalmente.
É que aquilo que José Gil, ao longo de cento e quarenta páginas, vai descrevendo é mais profundo que a generalidade dos escritos bibliograficamente catalogados. Mais que as filosóficas, pois estas encerram o pensamento de um sujeito, ou de vários que pensam da mesma forma. Que as de Psicologia pois, na maioria dos exemplos, é a mente de uma pessoa apenas que está em jogo. Na Literatura são personagens, fictícias e desprovidas de corpo, as retratadas. Já “Portugal Hoje – O Medo de Existir” é como que uma mistura de tudo isto e mais qualquer coisa. Trata-se de, de uma forma simples, (tão) sucinta (quanto o possível) e concreta, trespassar transversalmente cerca de meio século de (in)existência. Uma radiografia àquilo que é a mentalidade e a consciência portuguesa e de ser Português, com os seus medos, ressentimentos, queixumes, invejas, traumas, terrores, mas também como os seus afectos e a sua relação com os espaços públicos, da televisão à democracia, analisando a passagem proporcionada pelo 25 de Abril.
Bem escrito, bem pontuado, (medianamente revisto), bem pensado, é uma resposta a quem não acredita no bom pensamento em Português. Profundo e sério, mas também concreto. Para repetir, pois valerá a pena entendê-lo. Numa próxima leitura, talvez…

Título: Portugal Hoje – O Medo de Existir
Autor: José Gil
Capa: Relógio d’Água Editores
Relógio d’Água Editores, 6ª Reimpressão, Março de 2005

Friday, November 04, 2005

Corporativismo (alguém falou em Marx?)

Desde sempre o Homem sentiu necessidade de se ajudar. Desde o início que o Homem caça em grupo, vive em grupo, decide em grupo (os exemplos de totalitarismo não são nada abonatórios) e também em grupo foi construindo sociedades, mais ou menos florescentes.
Mais que histórica, essa característica é pessoal. No fundo, todos nos agarramos a algo. Ao peito materno, quando bebés. Depois aos amigos da escola, onde os pequenos grupos de amigos nos introduzem novos amigos e novas situações. Quando adolescentes, os primerio conflitos levam-nos a olhar para o lado. Físicos ou psicológicos, estes conflitos deixam mazelas, e todas as mãos podem ser úteis. Mesmo na vida adulta, são inúmeras as actividades profissionais que nos fazem trabalhar em grupo, ou pedir apoio. A velhice acaba por ser paradigmática, neste aspecto. Como a infância. Extremos que se tocam, no fundo.
Aquele problema da solidão que tantos (e outros tantas vezes) conhecemos passa um pouco por aqui. Não é só a companhia ou o convívio. É a protecção. E a necessidade de proteger e ajudar. Que nos é tão própria. Houve quem não resistisse a este apelo. A esta necessidade. A de ajudar. E abraçou algo de importante, em que se pode sentir útil. Todos somos convidados, todos os dias. Porque recebe mais quem dá. E sente-se mais feliz...

Wednesday, November 02, 2005

Let's the party begin?


Sim uma festa. De divertimento, eventualmente. Sobretudo de alegria. Muita de quem recebe. Mais ainda de quem dá. E, ao contrário da publicidade televisiva, em que praticamente somos obrigados a comer e calar, aqui é diferente. Come quem quer, e todos somos convidados a falar. E a tomar parte. Aguentas-te?




Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê. Aqui, já está a acontecer.